Paraquedas

Dois anos e dez meses. Mil e trinta dias. Algumas milhares de horas incalculáveis. Dois gabinetes. Três secretarias. E contar pessoas é injusto.
Quando eu era mais nova passar de fase significava vencer um chefão foda do videogame, uma fase difícil. Complicado. Era triste perder os jogos salvos do memory card e ter que passar todas as fases de novo. Voltar do zero. Perder vidas. Zerar o jogo enfim e ser feliz. Começar de novo, por prazer.
Cresci um pouquinho e tudo era fase: “distúrbio alimentar”, é fase; “crises de namoro”, fase; “passar ano novo longe da família”, é fase; “tudo rosa”, fase; “tudo preto”, fase. Ouvia as pessoas consolando minha mãe e dizendo: “não se preocupa, é fase, vai passar!”. Passava, sempre. Mas diferente do videogame, não dava pra jogar de novo. Na maioria das vezes eu nem queria, e o que ficou difícil é que você nunca conseguia voltar pra fazer um jogo melhor. Era um saco. Se fizesse merda, tinha que aguentar, porque não dava pra voltar e fazer uma pontuação melhor. A chefona era invencível, porque eu realmente não consegui fazer tatuagem aos 16 anos, nem ter um piercing no umbigo, no nariz, ou pintar meu cabelo de preto, azul ou rosa, luzes, nem ficar careca. Caso sério!
Acontece que crescer é um problema às vezes, e esse conceito de fase é constantemente mutável, apesar de te perseguir com o mesmo sentido, até o seu último dia. Você aprende que passar de fase não é uma questão facultativa. Aprende que a vida decide pro seu bem quando ela acaba, te empurra pra fora dela, pra dentro de um buraco negro, fundo e sem fim. Aprende que você só vai sair desse buraco quando encontrar a porta bonitinha que te leva pra próxima fase, que você sempre espera que seja melhor que a outra, mas nem sempre é. Às vezes a próxima fase só é dificil o suficiente pra você ganhar mais vidas e ser mais feliz na fase legal.
Hoje eu passei de fase. E foi bem mais difícil do que parecia ser. Foi insuportável, pra falar a verdade. Olha, chegou a doer, todas as nove horas. Na minha constante bipolaridade, quis que o dia acabasse bem rápido, e que durasse um pouco mais, pra eu poder ficar um pouquinho ali, ou só terminar o trabalho interminável. Até olhar o céu pela janela enquanto bebia água parecia ser saudoso, aí ver a mesa vazia foi o fim da picada. Ela nunca ficou vazia.
No fim me lembraram que eu tinha que anotar meus sonhos. Olhar pra eles, voltar no tempo um dia pra lê-los e ter certeza que sonhos se realizam. Esqueci que já tinha perdido o tempo de sonhar, e lembrei, de relance, que meu sonho tá gravado em mim. Anotei pra não esquecer. Meu sonho é voar.

Não é que eu tenha encontrado a portinha. Mas eu tô de paraquedas, eu não sei onde eu vou cair, nem quando cair. Meu videogame tá quebrado.

2014-10-30 01.17.36

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